"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto
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Jan 13
publicado por Moscardo, às 20:00link do post | comentar

     Não escrevo sobre as reacções fanáticas e fúteis desta semana. As redes sociais, dentro de tudo o que possibilitam, ajudaram a dar voz a alguns ignorantes. Ainda assim, a questão do fanatismo é importante porque, analisando bem o tema, sempre foi incontornável na sociedade: mais antigo que qualquer clube, pensamento político ou religião é, a nível lógico, completamente independente da própria crença defendida, podendo qualquer pessoa ser fanática seja do que for. É uma daquelas características primárias que surgiram com o despertar da consciência humana e nunca desapareceu.
     Amos Oz, escritor israelita e auto-intitulado especialista em fanatismo comparado, define-o como um gene do Mal, a necessidade de querer impor a sua vontade aos outros, sendo incapaz de ter um olhar autocrítico. Surge naturalmente, no seio da família e por influência do meio em que se cresce e, por ficar tão enraizado, torna-se especialmente difícil de combater. A questão israelo-palestiniana sempre se assomou como um conflito de resolução complexa, pelas questões religiosas e culturais que envolve, e pela duração secular que tem. E no entanto, se removermos toda a camada densa de aparência que a circunda, verificamos que se reduz a uma questão territorial, motivo pelo qual já se mataram, matam e matarão milhões de pessoas. Parece ficar mais simples de resolver.

 

   No final do texto "Da natureza do fanatismo", Amos Oz sugere a literatura (apenas alguma) como forma catártica de ultrapassar o fanatismo: Sha­kespeare, Gogol, Kafka. E acrescenta:

 

Nenhum homem é uma ilha, disse John Donne, mas atrevo-me humildemente a acrescentar: nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, mas cada um de nós é uma península, com uma metade unida à terra firme e a outra a olhar para o oceano - uma meta­de ligada à família, aos amigos, à cultura, à tra­dição, ao país, à nação, ao sexo e à linguagem e a muitas outras coisas, e a outra metade a desejar que a deixem sozinha a contemplar o oceano. Penso que nos deviam deixar continuar a ser penínsulas.


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