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Delírio do Moscardo

"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto

Delírio do Moscardo

"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto

25.Nov.12

Três Cores: Branco

   Branco é uma leve comédia romântica apenas na aparência. Há um nível de interpretação adicional, um humor negro subjacente, uma ironia intangível em todo o filme. Uma mala sobre o tapete rolante dum aeroporto é a cena inicial. Karol Karol (Charlie Charlie?) é um cabeleireiro polaco que procura evitar a separação da esposa, que se pretende divorciar devido à não consumação do casamento. A primeira das humilhações que este herói chapliniano sofre. A sua personalidade combina um misto de ingenuidade e malícia de forma desconcertante, cada uma assumindo as rédeas do seu comportamento alternadamente. Tendo perdido tudo para a esposa em Paris, e sem dinheiro para viajar, Karol regressa à terra natal polaca escondido numa mala. A mesma que inicia o filme. Metáfora perfeita da sujeição a um percurso desconhecido, cercado pelo alheio, por circunstâncias que o toldam. Regressa a uma Polónia transfigurada, onde o capitalismo começa a afirmar-se como um novo modo de vida e a sociedade luta por olvidar traumas de um passado comunista. Nesta nova Polónia, tudo é diferente: há mercedes, empresas multinacionais, dólares. O distanciamento do passado é visível na aversão à igreja e no rompimento com tradicionais valores morais. Os novos dogmas são os do mercado. Tudo se vende, tudo se compra... Desde que não seja russo. O individualismo afirma-se em toda a sua glória, o materialismo ganha força, a espiritualidade perdeu-se. A personagem principal parece não ter apelido. Não tem raízes nem terá continuidade, vive para o momento.
   Onde está então a igualdade? Vemos um país recém capitalista a tentar afirmar-se no ocidente. Vemos uma história de amor onde o equilíbrio de poderes é alterado, com um certo toque de vingança. Talvez a igualdade seja impossível num casamento, ou talvez até seja possível, prescindindo de liberdade. Há algo de azul neste branco.

 

18.Nov.12

Por uma questão de saúde

   Imagine-se um país onde tudo é quantificado. Vida humana inclusivé. Neste país, a administração da saúde é puramente financeira. Neste cenário, a vida humana tem preço. A salvação de uma pessoa é inversamente proporcional ao dispêndio da cura. O serviço nacional de saúde vai deixando de funcionar como garante do direito à saúde dos cidadãos. Desmantela-se uma estrutura fundamental dum estado social, pela qual se lutou durante décadas. Neste novo sistema, os medicamentos são cuidadosamente racionados, o stock de material clínico, que se esgota diariamente, é do mais barato possível sem olhar à qualidade. Cortam-se, cegamente, as despesas com funcionários de limpezas, administração, enfermeiros e médicos; as filas de espera disparam para consultas, exames e cirurgias; a subcontratação, método usado de forma ridícula no privado, começa a fazer escola.
   Que o serviço nacional de saúde necessita de ser revisto, é óbvio. Que está a ser feito da forma errada, também o é.

13.Nov.12

Quinta dos Animais

 

Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.

 

George Orwell, O Triunfo dos Porcos

 

 

09.Nov.12

Jornaleiros do Quarto Poder

 

   Ao ler um artigo ou ver uma reportagem, pergunto-me sempre: que interesses serve a pessoa que o concebeu? Como muitas outras áreas profissionais, o jornalismo está decadente. Tem sido destruído com o desgaste dos valores deontológicos, com a perda do rigor, da investigação, da objectividade, com a omissão de notícias que verdadeiramente interessam à população. Destrói-se despedindo profissionais competentes e contratando garotos que mal sabem escrever, e pouca preocupação têm com a veracidade dos factos. O triunfo da Internet, com todas as virtudes que apresenta, contém, simultaneamente, informação dispersa, distorcida e duvidosa, que muitas vezes serve de base a artigos noticiosos. Também é amplamente reconhecido, hoje, que qualquer orgão de imprensa pode servir sobretudo os interesses de grandes grupos económicos, qual oligarquia. A liberdade de imprensa torna-se então um conceito vago, ilusório e as próprias referências sociais e humanas que tínhamos e podíamos assumir como verdadeiras, esboroam-se aos nossos pés. A destruição deste suporte cultural é perigoso para a nossa construção, enquanto seres pensantes, precisamente porque prejudica o caminho do conhecimento, tornando-nos acríticos ou, em alternativa, sem qualquer capacidade de inferir uma opinião fundamentada sobre os acontecimentos que nos rodeiam.

04.Nov.12

Três Cores: Azul

   

   Azul é o primeiro filme da reconhecida trilogia das cores, de Krzysztof Kieslowski.  O tema é a liberdade. Não liberdade social ou política, mas emocional. Aquela que deve permitir esquecer a perda de uma família. Após um acidente de automóvel que tira a vida ao marido e única filha, Julie tenta recuperar um sentido para a sua existência. Entramos no seu quotidiano, frágil, destruído e sombrio, em que parece já não existir razão para viver.

   Kieslowski presta grande importância ao detalhe. É contemplativo sem ser exaustivo. A acção é filmada com uma fluidez visual e lírica que nos imerge naquele universo. Cada personagem é retratada de forma sublime, verdadeira, dedicada. Diversos grandes planos fazem-nos crer estar dentro da personagem, dando-nos um novo olhar: quer que a entendamos, e entendemos. Cada singular emoção.

   O filme está carregado de simbolismo. A piscina enquanto local de dicotomia: vida e morte, a água enquanto elemento de vida e renascimento. A busca pela compreensão humana está sempre presente, mesmo nos momentos de puro silêncio, mas onde o azul resplandece.  Pelo meio, cenas que se dissolvem no negro, não como pausa entre espaço ou época diferentes, mas como suspensões no tempo, instantes onde o consciente actua ao som da orquestra, qual pontuação musical, na pauta da tragédia.

   Paradoxalmente, a falta de liberdade que tem em desligar-se do mundo, onde nega memórias passadas, traz a Julie a vontade de seguir em frente: a liberdade de existir. O que há de mais humano.