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Delírio do Moscardo

"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto

Delírio do Moscardo

"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto

30.Mai.13

A Puya

 

     Na cidade de La Paz, na Bolívia, um tráfego louco – carros de um lado para o outro, buzinadelas, insultos, homens que estão prontos para acertar com violência o seu punho no centro da cara do outro, etc., etc. Enfim, no meio da maior confusão de cheiros e sons e vozes e argumentos e corpos, eis que dois homens tranquilos, muy tranquilitos, dois vizinhos, dois velhos vizinhos, sentados no passeio à frente das suas casas, em duas cadeiritas de madeira, conversam há muitos minutos. O assunto? A maior erva do mundo, a puya. A puya, segundo informações bem documentadas, “possui um caule de 4 metros de altura”; é uma planta herbácea, uma espécie rara gigante que cresce nas altas montanhas da Bolívia.
     Pois bem, ali estão esses dois homens de muita idade: um, de seu nome, Arturo – viúvo, oitenta e sete anos, pai de Carmelita e de Joaquim, dois belos cinquentões que trabalham na indústria farmacêutica e que devem estar, neste momento, algures no meio do tráfego, a apitar, a gritar e a insultar. O outro velhote, Diego, oitenta e três anos; velho que nunca casou, por distração, segundo parece; e que foi em tempos um devoto das mulheres, mas que há muito, como ele próprio diz, abandonou essa igreja e essa crença.
     Pois bem, Arturo e Diego, dois velhíssimos homens no centro da cidade de La Paz, no meio das buzinadelas e do fumo intenso, conversam então sobre a puya, uma planta herbácea “que demora 150 anos a florescer”. É, como dizem todos os catálogos de curiosidades, “a planta mais lenta a dar flor”.
     – A planta mais lenta a dar flor! – que bonito, não?
     – Sim – responde Diego – 150 anos!

     Sejamos claros: estes dois homens bem velhos, com oitenta e três e oitenta e sete anos estão sentados e quase sem se moverem, mas na verdade estão a fazer algo pelo mundo, algo de essencial: no meio do caos urbano lembram-nos que há uma erva nas montanhas mais altas da Bolívia que demora 150 anos a dar flor. Que não se apressa e não desiste.
Arturo diz a Diego:
     – Um belo exemplo, não?
     E Diego acena com a cabeça.
     – Sim, um excelente exemplo.
     Por vezes, quando questionavam o velho Arturo, o velho Arturo da cidade de La Paz, quando lhe perguntavam:
     – E tu, Arturo, tu que tens oitenta e dois anos, qual é a tua referência, qual o teu modelo, qual é agora a tua crença?
     Arturo, o velho Arturo, respondia sempre:
     – A minha crença? Nenhum deus, nenhum homem. E nenhum animal. A minha referência é mesmo a erva-flor puya. Cento e cinquenta anos leva ela até mostrar o seu lado mais belo; sem pressa e sem desistir: o que é belo irá aparecer, eis o que ela nos ensina.
     – Você acredita nisso, amigo… que a sua parte mais bela ainda irá aparecer, você que tem… oitenta e sete?
     – Si, claro – respondia Arturo, o velho Arturo. – Ainda tenho oitenta e sete, para os cento e cinquenta ainda falta muito. Mais de sessenta anos.
     Pois bem, voltemos a olhar para o incrível tráfego da cidade de La Paz, para o barulho, para a pressa, para os empurrões, para as zangas, para os gritos, para aquele homem que tropeça, para aquela mulher que insulta, para o bando de meninos que passa a correr, olhemos de uma vez para a efervescente cidade de La Paz e, depois, num rápido movimento foquemos de novo a atenção naqueles dois velhos. Arturo e Diego.
     Sem pressa e sem desistir, ali estão eles, Arturo e Diego, os dois únicos homens que, em plena confusão da cidade, idolatram a puya, a flor paciente.



Gonçalo M. Tavares, Paciência em La Paz