"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto
08
Jul 12
publicado por Moscardo, às 15:24link do post | comentar

    O último filme de Béla Tarr é tremendamente contemplativo. O narrador conta uma história de Nietzsche: o filósofo terá saído de casa, na manhã de 3 de Janeiro de 1889, e testemunhado um camponês a chicotear o seu cavalo, que se recusava a obedecer. Nietzsche terá abraçado o cavalo para o proteger e, no instante seguinte, desmaiado, tendo sofrido, desde então, com uma doença mental que o acompanhou até à morte. O filme desenvolve a história do velho e rude camponês, da filha e do cavalo. É composto por rotinas exaustivas, quase ritualizadas, ao longo de 6 dias: a filha do camponês veste o pai, prepara duas batatas cozidas que repetidamente servem de refeição, lava a roupa, vai buscar água ao poço. A relação entre pai e filha é distante: ajudam-se nas tarefas diárias mas são raros os diálogos entre ambos. No exterior, uma tempestada varre inexoravelmente aquele terreno isolado e estéril. O cavalo, agastado por anos de trabalho, resiste a comer e puxar a carroça, parecendo querer acelerar o fim. A banda sonora é composta pela solene composição de Mihâly Vig, cujas notas se repetem tal como os gestos das personagens, e pelo vento. Sempre o vento. Este torna-se uma das personagens principais, actuando como agente prenunciador de desgraça. A fotografia é sublime: um belo jogo de luz e sombras interage com as personagens sem deixar de realçar a cruel realidade. Pelo meio, temos apenas duas cenas onde elementos do exterior invadem aquele microcosmos: uma família de ciganos, cuja excentricidade contrasta de forma irrisória com o ambiente lúgubre da casa, e a visita de um vizinho, que vai pedir palinka, e incorre num profundo monólogo desconsolador: tudo está em ruínas, tudo está degradado, o homem virtuoso percebeu que não há deus nem deuses, não há o bem nem o mal.

 

    Nas feições de pai e filha não se vislumbra qualquer espécie de esperança ou felicidade. Apenas resignação. Aquela é a sua existência e em breve terminará, em silêncio, para além do bem e do mal.

 

 

 

 

 


mais sobre mim
Julho 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
12
13
14

17
19
20

22
24
28

30
31


pesquisar neste blog
 
Sitemeter
Google Analytics
blogs SAPO