"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto
04
Nov 12
publicado por Moscardo, às 18:00link do post | comentar

   

   Azul é o primeiro filme da reconhecida trilogia das cores, de Krzysztof Kieslowski.  O tema é a liberdade. Não liberdade social ou política, mas emocional. Aquela que deve permitir esquecer a perda de uma família. Após um acidente de automóvel que tira a vida ao marido e única filha, Julie tenta recuperar um sentido para a sua existência. Entramos no seu quotidiano, frágil, destruído e sombrio, em que parece já não existir razão para viver.

   Kieslowski presta grande importância ao detalhe. É contemplativo sem ser exaustivo. A acção é filmada com uma fluidez visual e lírica que nos imerge naquele universo. Cada personagem é retratada de forma sublime, verdadeira, dedicada. Diversos grandes planos fazem-nos crer estar dentro da personagem, dando-nos um novo olhar: quer que a entendamos, e entendemos. Cada singular emoção.

   O filme está carregado de simbolismo. A piscina enquanto local de dicotomia: vida e morte, a água enquanto elemento de vida e renascimento. A busca pela compreensão humana está sempre presente, mesmo nos momentos de puro silêncio, mas onde o azul resplandece.  Pelo meio, cenas que se dissolvem no negro, não como pausa entre espaço ou época diferentes, mas como suspensões no tempo, instantes onde o consciente actua ao som da orquestra, qual pontuação musical, na pauta da tragédia.

   Paradoxalmente, a falta de liberdade que tem em desligar-se do mundo, onde nega memórias passadas, traz a Julie a vontade de seguir em frente: a liberdade de existir. O que há de mais humano.

 

 


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