"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto
16
Jan 15
publicado por Moscardo, às 13:00link do post | comentar

 

     Tenho um amigo que diz que o tema recorrente nos filmes do Manoel de Oliveira é o desespero. Ou pelo menos é o que sente quando os vê. Bem, reconheçamos que aqueles planos longos e estáticos não são para todos os espectadores. Mas, caramba, se aquele Gebo não é o retrato mais perfeito do soturno povo português? Aquele povo português conformista, acabrunhado, desesperançado, envolvido inextricavelmente na penumbra, na sombra. Aquele povo que acusam de ser ladrão - ou que andou a viver acima das duas possibilidades - e aceita... derrotado.

 

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25
Fev 13
publicado por Moscardo, às 00:00link do post | comentar

     Há uma linha muito ténue entre ser influenciado e ser manipulado. A diferença é a liberdade de escolha...

     No seu último filme, Paul Thomas Anderson aborda a consciência humana, ao nível da percepção e memória. Freddie Quell é um veterano da 2ª Grande Guerra, com distúrbios mentais, que deambula de emprego em emprego, tentando integrar-se numa nova sociedade que pouco lhe diz. Pelo caminho encontra Lancaster Dodd, o carismático líder da Causa, uma espécie de seita religiosa, envolta em polémica, e que desafia alguns dos mais concretos dogmas da ciência moderna. Freddie torna-se acólito, e aceita submeter-se a um tratamento sugerido por Dodd, que aproveita para praticar alguns dos métodos que professa. Há uma dinâmica interessante entre ambos. Um é uma força descontrolada e irracional, que abunda em imprevisibilidade. O outro é sereno e magnético, apologista do autocontrolo. A relação de mentor/discípulo que se desenvolve não é linear. O líder da Causa parece, apesar do seu esforço, deixar-se influenciar pelo comportamento errático e impulsivo do seu pupilo, acabando por transparecer algumas falhas de carácter e incoerências nos ensinamentos que apregoa.
     Não obstante a forte ligação entre ambos, cada um segue o seu caminho. Numa visão final que roça o onírico, Dodd é bem sucedido na expansão do seu culto; Freddie liberta-se da influência do Mestre, vendo restaurada a sua liberdade de escolha, mesmo que seja para falhar constantemente na vida. O seu carácter bestial e indomável retém o que de mais puro há na existência humana, evitando um destino de submissão.

     E o enorme navio prossegue, deixando um rasto de águas agitadas... uma espiral de espuma e sal.

 

 


05
Dez 12
publicado por Moscardo, às 10:00link do post | comentar

   No derradeiro filme da trilogia, o desencontro parece ser a rotina. Kieslowski aborda diversos temas sem perder de vista o crucial, da natureza humana. Tem uma abordagem incisiva e consciente do voyeurismo, da vigilância, da privacidade, mas também do que nos une enquanto espécie: a fraternidade. Talvez o motivo tratado de forma menos ambígua na trilogia.
   Valentin é estudante e modelo em Genebra. É aberta, generosa, atenciosa, capaz de criar laços com as pessoas mais austeras. É igualmente bela na aparência, idealizada como autêntica bailarina de costas arqueadas. O rumo que a sua vida toma vai gradualmente sendo revelado a cada cena, sem qualquer esforço. Ao longo da acção, as personagens entrecruzam-se constantemente, tal como folhas que dançam ao vento. Apenas o vermelho as intersecciona, nas suas dimensões espaciais e temporais, actuando como compasso. Toda a luz é predominante, enquanto movimento, enquanto elemento revelador de lucidez. E, no entanto, ilumina apenas o suficiente para nos deixar na dúvida: percebemos realmente o que nos rodeia, ou a nossa perspectiva é constantemente influenciada por algo ou alguém? São as nossas vidas determinadas por sorte, destino ou auto-determinação? Existem segundas oportunidades? Neste universo, a tecnologia concretiza-se no telefone, que, enquanto veículo de comunicação, apresenta, paradoxalmente, um mundo de sinais sonoros que se revela um obstáculo, por vezes distanciando mais do que aproxima.

   Onde o severo quotidiano convive com o misterioso e o passado coabita com o futuro, um idoso é finalmente ajudado a colocar uma garrafa num depósito de lixo. Neste mundo de cabines de vidro, a bondade dos estranhos é uma possibilidade humana.

 


25
Nov 12
publicado por Moscardo, às 14:00link do post | comentar

   Branco é uma leve comédia romântica apenas na aparência. Há um nível de interpretação adicional, um humor negro subjacente, uma ironia intangível em todo o filme. Uma mala sobre o tapete rolante dum aeroporto é a cena inicial. Karol Karol (Charlie Charlie?) é um cabeleireiro polaco que procura evitar a separação da esposa, que se pretende divorciar devido à não consumação do casamento. A primeira das humilhações que este herói chapliniano sofre. A sua personalidade combina um misto de ingenuidade e malícia de forma desconcertante, cada uma assumindo as rédeas do seu comportamento alternadamente. Tendo perdido tudo para a esposa em Paris, e sem dinheiro para viajar, Karol regressa à terra natal polaca escondido numa mala. A mesma que inicia o filme. Metáfora perfeita da sujeição a um percurso desconhecido, cercado pelo alheio, por circunstâncias que o toldam. Regressa a uma Polónia transfigurada, onde o capitalismo começa a afirmar-se como um novo modo de vida e a sociedade luta por olvidar traumas de um passado comunista. Nesta nova Polónia, tudo é diferente: há mercedes, empresas multinacionais, dólares. O distanciamento do passado é visível na aversão à igreja e no rompimento com tradicionais valores morais. Os novos dogmas são os do mercado. Tudo se vende, tudo se compra... Desde que não seja russo. O individualismo afirma-se em toda a sua glória, o materialismo ganha força, a espiritualidade perdeu-se. A personagem principal parece não ter apelido. Não tem raízes nem terá continuidade, vive para o momento.
   Onde está então a igualdade? Vemos um país recém capitalista a tentar afirmar-se no ocidente. Vemos uma história de amor onde o equilíbrio de poderes é alterado, com um certo toque de vingança. Talvez a igualdade seja impossível num casamento, ou talvez até seja possível, prescindindo de liberdade. Há algo de azul neste branco.

 


04
Nov 12
publicado por Moscardo, às 18:00link do post | comentar

   

   Azul é o primeiro filme da reconhecida trilogia das cores, de Krzysztof Kieslowski.  O tema é a liberdade. Não liberdade social ou política, mas emocional. Aquela que deve permitir esquecer a perda de uma família. Após um acidente de automóvel que tira a vida ao marido e única filha, Julie tenta recuperar um sentido para a sua existência. Entramos no seu quotidiano, frágil, destruído e sombrio, em que parece já não existir razão para viver.

   Kieslowski presta grande importância ao detalhe. É contemplativo sem ser exaustivo. A acção é filmada com uma fluidez visual e lírica que nos imerge naquele universo. Cada personagem é retratada de forma sublime, verdadeira, dedicada. Diversos grandes planos fazem-nos crer estar dentro da personagem, dando-nos um novo olhar: quer que a entendamos, e entendemos. Cada singular emoção.

   O filme está carregado de simbolismo. A piscina enquanto local de dicotomia: vida e morte, a água enquanto elemento de vida e renascimento. A busca pela compreensão humana está sempre presente, mesmo nos momentos de puro silêncio, mas onde o azul resplandece.  Pelo meio, cenas que se dissolvem no negro, não como pausa entre espaço ou época diferentes, mas como suspensões no tempo, instantes onde o consciente actua ao som da orquestra, qual pontuação musical, na pauta da tragédia.

   Paradoxalmente, a falta de liberdade que tem em desligar-se do mundo, onde nega memórias passadas, traz a Julie a vontade de seguir em frente: a liberdade de existir. O que há de mais humano.

 

 


25
Ago 12
publicado por Moscardo, às 18:00link do post | comentar | ver comentários (2)

   Onde o dinheiro é tempo, onde a vida é demasiado contemporânea, onde tudo é medido, onde a realidade é vista pela janela de uma limousine, onde o futuro é o nada...

 


08
Jul 12
publicado por Moscardo, às 15:24link do post | comentar

    O último filme de Béla Tarr é tremendamente contemplativo. O narrador conta uma história de Nietzsche: o filósofo terá saído de casa, na manhã de 3 de Janeiro de 1889, e testemunhado um camponês a chicotear o seu cavalo, que se recusava a obedecer. Nietzsche terá abraçado o cavalo para o proteger e, no instante seguinte, desmaiado, tendo sofrido, desde então, com uma doença mental que o acompanhou até à morte. O filme desenvolve a história do velho e rude camponês, da filha e do cavalo. É composto por rotinas exaustivas, quase ritualizadas, ao longo de 6 dias: a filha do camponês veste o pai, prepara duas batatas cozidas que repetidamente servem de refeição, lava a roupa, vai buscar água ao poço. A relação entre pai e filha é distante: ajudam-se nas tarefas diárias mas são raros os diálogos entre ambos. No exterior, uma tempestada varre inexoravelmente aquele terreno isolado e estéril. O cavalo, agastado por anos de trabalho, resiste a comer e puxar a carroça, parecendo querer acelerar o fim. A banda sonora é composta pela solene composição de Mihâly Vig, cujas notas se repetem tal como os gestos das personagens, e pelo vento. Sempre o vento. Este torna-se uma das personagens principais, actuando como agente prenunciador de desgraça. A fotografia é sublime: um belo jogo de luz e sombras interage com as personagens sem deixar de realçar a cruel realidade. Pelo meio, temos apenas duas cenas onde elementos do exterior invadem aquele microcosmos: uma família de ciganos, cuja excentricidade contrasta de forma irrisória com o ambiente lúgubre da casa, e a visita de um vizinho, que vai pedir palinka, e incorre num profundo monólogo desconsolador: tudo está em ruínas, tudo está degradado, o homem virtuoso percebeu que não há deus nem deuses, não há o bem nem o mal.

 

    Nas feições de pai e filha não se vislumbra qualquer espécie de esperança ou felicidade. Apenas resignação. Aquela é a sua existência e em breve terminará, em silêncio, para além do bem e do mal.

 

 

 

 

 


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