"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto
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Out 12
publicado por Moscardo, às 22:00link do post | comentar
   Com Chekhov, o motivo deixa de ser o grandioso e o sublime para passar a ser o trivial. O drama do homem comum é o foco da narrativa: a ignorância, a miséria, a humildade, a ingenuidade, o absurdo da condição humana. Tudo em paralelo com uma época de revolução ideológica, onde as velhas convenções e estruturas sociais se diluem. E o conto ganha uma nova dimensão.








   Em Tristeza, é cruamente expressa a individualidade, indiferença e egoísmo do modo de vida citadino:


Depois de meter ao bolso os vinte kopecks, Jonas ficou-se durante muito tempo a seguir com os olhos os três pândegos que desapareceram num portal escuro. Ei-lo de novo solitário. O silêncio apoderou-se dele mais uma vez. A sua nostalgia, que por um instante o abandonara, surgiu de novo e oprimiu-lhe o peito com dobrada violência. O seu olhar perturbou-se e, angustiado, percorreu a multidão de peões que atravessavam constantemente a calçada de um lado para o outro: entre aqueles milhares de pessoas não haveria uma só capaz de o escutar? Mas a multidão apressava-se , não reparava nele nem na sua tristeza. Era uma tristeza imensa, que não tinha limites. Se o peito de Jonas rebentasse, deixando-o a expandir-se, por certo inundaria o mundo inteiro.


Chekhov, Contos Escolhidos

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