"devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo." José Luís Peixoto
15
Ago 17
publicado por Moscardo, às 22:00link do post | comentar

   

   Hoje em dia fala-se muito sobre dar autoestima às crianças. Isso não é uma coisa que se possa dar, é algo que tem de ser construído. O treinador Graham trabalhava numa zona de mimos proibidos. Autoestima? Ele sabia que só há uma forma de ensinar as crianças a desenvolvê-la: damos-lhes alguma coisa que não conseguem fazer, elas esforçam-se até descobrirem que são capazes, e depois repetimos o processo.

 

Randy Pausch, A Última Aula

 


09
Ago 17
publicado por Moscardo, às 22:00link do post | comentar

 

   "Há talvez apenas uma coisa a dizer a esta bebé, toda ela futuro, entrecruzando-se brevemente comigo, cuja vida, represando o improvável, é apenas passado.
   Essa mensagem é simples:
   Quando chegares a um dos muitos momentos na vida em que tenhas de dar conta de ti própria, providenciar um registo do que foste, e fizeste, e significaste para o mundo, não descontes, rogo-te eu, o facto de teres enchido os dias de um moribundo de saciada alegria, alegria de mim desconhecida em todos os meus anos passados, alegria que não tem fome de mais e mais mas repousa, satisfeita. Neste tempo, agora mesmo, isso é uma coisa imensa."

 

Paul Kalanithi, Antes de eu partir


26
Jun 17
publicado por Moscardo, às 22:00link do post | comentar

 

   Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Só existe um meio. Entre em si mesmo. Procure as razões que o levam a escrever; verifique se elas lançam raízes nas profundezas do seu coração, pergunte e responda a si mesmo se morreria caso o impedissem de escrever. E acima de tudo: pergunte a si mesmo no mais silencioso da noite: tenho de escrever? Mergulhe nos abismos da sua essência em busca de uma resposta profunda. E caso esta seja afirmativa, se puder responder a esta pergunta séria com um simples e forte "Sim, tenho", então construa a sua vida à volta dessa necessidade.

 

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta


22
Jul 14
publicado por Moscardo, às 23:30link do post | comentar

   

   A mente intuitiva é, sem sombra de dúvida, traiçoeira. Na forma como gera histórias e conclusões a partir de acontecimentos mal interpretados ou simplesmente esporádicos. Assim se explica a repetição constante dos mesmos erros ao longo da História.


Não se consegue evitar lidar com a limitada informação que se possui como se fosse tudo aquilo que há para saber. Constroem-se as melhores histórias possíveis a partir da informação disponível e, se for uma boa história, acredita-se nela. Paradoxalmente, é mais fácil construir uma história coerente quando se sabe pouco, quando há menos peças para encaixar no puzzle. A nossa reconfortante convicção de que o mundo faz sentido baseia-se num alicerce seguro: a nossa capacidade quase ilimitada de ignorar a nossa ignorância.(...) O âmago da ilusão é que acreditamos compreender o passado, o que implica que o futuro deveria ser também cognoscível, mas na realidade compreendemos menos o passado do que aquilo que acreditamos conhecer.


Daniel Kahneman, Pensar, Depressa e Devagar


08
Set 13
publicado por Moscardo, às 18:00link do post | comentar

 

Mas que importa a eternidade da danação a quem encontrou num segundo o infinito do prazer?


Baudelaire, Le spleen de Paris (1862)


31
Ago 13
publicado por Moscardo, às 11:45link do post | comentar

 

No quartinho isolado, onde nunca chegou o vento árido, nem o pó nem o calor, recordavam ambos a versão atávica de um ancião com chapéu de asas de corvo, que falava do mundo de costas para a janela, muitos anos antes de eles terem nascido. Os dois descobriram ao mesmo tempo que ali era sempre Março e sempre segunda-feira e então perceberam que José Acadio Buendía não estava tão louco como a família dizia, mas sim que era o único que dispusera de suficiente lucidez para vislumbrar a verdade de que também o tempo sofria percalços e acidentes e que, portanto, podia estilhaçar-se e deixar num quarto uma fracção eternizada.

 

Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão


03
Mar 13
publicado por Moscardo, às 14:30link do post | comentar

 

     Viagem ou vida, chegamos sempre aqui. Como se estivéssemos no alto de uma montanha, podemos olhar em volta. Aqui é o lugar onde tudo acontece. Há serenidade nesta certeza. Tens o dever livre de aproveitá-la.
     Se estás a ler estas palavras é porque estás vivo.

 

 

José Luís Peixoto, Dentro do Segredo: Uma Viagem na Coreia do Norte


publicado por Moscardo, às 14:00link do post | comentar

     Interessante, a obra Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto. A concretização real de ideias ou lugares literários como a caverna de Platão ou do famoso 1984 de Orwell. O autor traça um retrato cru da Coreia do Norte, dominada por um dos regimes mais fechados do mundo, e um mundo só por si, relatando a viagem de 15 dias que fez pelo país. Começa pelas origens. Toda a península coreana esteve subjugada pelos japoneses nas décadas iniciais do séc. XX, época em que a população sofria as piores humilhações e atrocidades. A derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial vem alterar o cenário geopolítico da região, criando uma divisão que ainda hoje persiste, o paralelo 38. O norte fica sob a influência política do comunismo soviético, enquanto o sul é controlado pelo capitalismo americano. Deste ponto em diante, a Coreia do Norte é consecutivamente liderada por "queridos líderes", "generais sempre vitoriosos", "sóis da humanidade". As linhas gerais do regime defendem a auto-determinação, a independência política, a auto-suficiência económica. Sempre houve uma boa dose de ironia nas ditaduras de base comunista. Na prática, recorrem ao exército como a força mais básica de controlo social, usam o culto e divinização da personalidade, dinamizam grandes eventos onde o fogo de artifício é preponderante, onde inesperadamente ofusca. Aqui mesmo, a população vive ignorante e na miséria, julgando que nada existe além do horizonte, numa felicidade e orgulho artificiais. Aqui mesmo, um estrangeiro não pode fotografar, filmar, levar telemóvel, levar obras musicais ou literárias (D. Quixote entrou clandestino), publicar qualquer registo do que viu. Também não pode andar sozinho na rua, não vá contaminar os locais com ideias reaccionárias.
     No fundo, todo o país é como o restaurante giratório do hotel de Pyongyang: não gira, nem no espaço, nem no tempo.

 

 


13
Jan 13
publicado por Moscardo, às 20:00link do post | comentar

     Não escrevo sobre as reacções fanáticas e fúteis desta semana. As redes sociais, dentro de tudo o que possibilitam, ajudaram a dar voz a alguns ignorantes. Ainda assim, a questão do fanatismo é importante porque, analisando bem o tema, sempre foi incontornável na sociedade: mais antigo que qualquer clube, pensamento político ou religião é, a nível lógico, completamente independente da própria crença defendida, podendo qualquer pessoa ser fanática seja do que for. É uma daquelas características primárias que surgiram com o despertar da consciência humana e nunca desapareceu.
     Amos Oz, escritor israelita e auto-intitulado especialista em fanatismo comparado, define-o como um gene do Mal, a necessidade de querer impor a sua vontade aos outros, sendo incapaz de ter um olhar autocrítico. Surge naturalmente, no seio da família e por influência do meio em que se cresce e, por ficar tão enraizado, torna-se especialmente difícil de combater. A questão israelo-palestiniana sempre se assomou como um conflito de resolução complexa, pelas questões religiosas e culturais que envolve, e pela duração secular que tem. E no entanto, se removermos toda a camada densa de aparência que a circunda, verificamos que se reduz a uma questão territorial, motivo pelo qual já se mataram, matam e matarão milhões de pessoas. Parece ficar mais simples de resolver.

 

   No final do texto "Da natureza do fanatismo", Amos Oz sugere a literatura (apenas alguma) como forma catártica de ultrapassar o fanatismo: Sha­kespeare, Gogol, Kafka. E acrescenta:

 

Nenhum homem é uma ilha, disse John Donne, mas atrevo-me humildemente a acrescentar: nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, mas cada um de nós é uma península, com uma metade unida à terra firme e a outra a olhar para o oceano - uma meta­de ligada à família, aos amigos, à cultura, à tra­dição, ao país, à nação, ao sexo e à linguagem e a muitas outras coisas, e a outra metade a desejar que a deixem sozinha a contemplar o oceano. Penso que nos deviam deixar continuar a ser penínsulas.


13
Nov 12
publicado por Moscardo, às 00:30link do post | comentar

 

Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.

 

George Orwell, O Triunfo dos Porcos

 

 


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